30 de agosto de 2013

O que somos nós? De que somos feitos? Pergunto-me. Num nível mais rudimentar dir-me-iam que somos feitos de carne, ossos e de órgãos. Mas não é a isso que me refiro. Pergunto-me o que somos nós. Que coisa é esta que nos faz sentir um dia uma coisa, decidir outra no dia a seguir, todos os dias, uns a seguir aos outros. Domingo é depois de Sábado, segunda-feira é antes de terça-feira e a seguir vem quarta. O que é o dia de hoje daqui a trinta anos? Poderei lembrar-me dele ou não. Nunca saberemos quais são os dias que importam e aqueles que não. No entanto, a nossa vida, é o conjunto dos dias que importam e não importam. Unem-se todos numa massa indivisível que moldamos com as nossas ações. Mas será correto dizer que as nossas ações é aquilo que nos define? Penso que não. Há tanto que fica para lá daquilo que fazemos ou dizemos.

Flutuamos numa corrente apenas de um sentido. Flutuamos todos juntos dando encontrões uns aos outros, cruzando-nos com uns, ignorando outros – não somos mais que peixes de um cardume estrebuchando contra a corrente. A corrente que nos puxa mais um bocadinho todos os dias - cada vez mais perto do olho do remoinho. Peixes assustados que, com a cabeça fora de água, têm a lucidez do seu fim tarde demais. E no entanto na maior parte dos dias não conseguimos ver isto, e é bom que assim seja, ou viveríamos as nossas vidas aterrorizados.

Mais um dia que acabou. Mais um salto fora de água. Mais um empurrão. Somos soprados para longe, devagar, sempre muito devagarinho, para algo que desconhecemos. E no entanto vamos cegos, uns mais que outros, mas cegos. Passamos a nossa vida tentado decifrar as apalpadelas que vamos dando no escuro. Às vezes fugimos, outras vezes receamos, outras vezes arriscamos, no fim quem é que teve mais inteligência? O que fugiu, o que receou ou o que arriscou? Não sei, talvez saiba a resposta a esta pergunta no fim das coisas (se até lá acordar) enquanto isso vou mergulhando nos mais profundos abismos, sempre às escuras, sempre aos apalpões e aos encontrões, sempre incerta e desconfiada, e quando estou prestes a fazer a descoberta de uma vida sou arrancada por uma mão firme que me aperta a garganta e outra que me puxa pelos cabelos e me traz de volta à vida tal como ela é, ou aparenta ser, sou forçada a vir à superfície para respirar, para não me afundar e perder de vez, para voltar a ser mais um peixe na corrente e ter a segurança que proporciona ver outros na minha situação, iguais a mim, com o mesmo destino. De seguida, e quase tão de repente como me trouxe à superfície, essas mãos voltam a mergulhar-me e a sacudir-me, sustenho a respiração e engulo em seco e estou de novo nas profundezas.
Outras vezes, deixo-me levar, calma e pacífica, ondulo sem tempo e destino, deixo-me ser arrastada e deixo que os empurrões que levo me dirijam o caminho, mal ou bem que me interessa? No fim vamos todos dar ao mesmo. Não sou mais que uma baleia perdida no mar da consciência, mergulhando, voltando à superfície, mergulhando de novo. Este ciclo vicioso que me enrola, onda que me traz e me leva, para a frente e para trás, baloiço a qual estou amarrada. No fim, só restará a espuma na areia que será de seguida absorvida e é dessa forma  que serei apagada.


Os dias passam. Amanhã será um novo dia que nada terá de diferente deste que está quase a acabar. Domingo é depois de Sábado, segunda-feira é antes de terça-feira e a seguir vem quarta. 

23 de agosto de 2013

Estava a procurar uma coisa no meu computador e de repente abro um documento que tinha isto: You are the most precious creature I've ever seen and your eyes are like sharp blades that stab my heart then make me wonder the high probabilities of the miracle of being alive just to watch you smile. 
Foi a coisa mais bonita que me disseram até hoje. 

22 de agosto de 2013

Tenho pena de todas as pessoas que um dia tiveram a infelicidade de ter o interesse de me conhecer. 
Sinto-me como se já tivesse vivido cem anos e, no entanto, ainda não vivi nenhum. A maior parte dos meus dias são mortos. Vivo sempre à espera de alcançar outra coisa, no entanto, com o passar dos anos, nota-se que alguma coisa produzi. Todos os dias faço alguma coisa, mesmo que seja mínima, que traça um caminho que me levará a algum lado mas, parece-me, que apenas o faço no intuito de passar o tempo até finalmente alcançar aquilo que desejo apesar de não saber do que se trata. Nos meus piores dias sou como um peso morto, caio em cima de qualquer coisa e dali não me movo, quando não o posso fazer e sou obrigada a estar em algum sítio o meu corpo está lá mas apenas isso, nesses dias vivo porque sou obrigada e por isso não me podem exigir mais do que aquilo que já estou a fazer. 
No entanto, as mais pequenas coisas fazem-me feliz; Adoro sentir o sol  a  aquecer o meu corpo  e a queimar-me ligeiramente a pele, o brilho que  dá ao meu cabelo quando embate diretamente sobre ele, as águas do rio, ora calmas, ora turbulentas (conforme a corrente) e a sua cor, uma vez azul, outras vezes turva, outras transparente. Tenho vontade de correr para ele e fundir-me - transformar-me em água do rio. A relva verde, com salpicos amarelos e brancos de margaridas e flores silvestres, que dá vontade de me lá deitar e rebolar e ali ficar eternamente. A maneira como o sol incide nos objetos, nas casas, à tarde, fazendo com que as coisas vibrem e se tornem cor de ouro e como tudo se desvanece depois no fim da tarde. Gosto de quando bebo café lamber primeiro a colher com a qual mexi. Gosto de vestir vestidos que tenham cor ou padrões que me dêem vivacidade. Gosto de usar batom. Adoro quando acordo de manhã com o sol a embater-me na cara pelas frestas das persianas e de ficar algum tempo na ronha a ouvir música antes de me levantar. Gosto de ter energia e de falar com pessoas de quem eu gosto ou nutro admiração. São coisas simples, sim, mas que todas juntas num dia me são capazes de me fazer sentir viva mas, e aqui está o problema, nem todos os dias são assim, há mais coisas para além destas que acabam por ter mais impacto e mais força, há dias que nem mesmo estas coisas todas juntas me são capazes de me fazer retornar à vida, procuro qualquer coisa, que apesar de não saber o que é, sei que nunca vou encontrar e mesmo assim tenho esperança, continuo a minha espera e a minha procura até que acabe por encontrar aquilo que quero. Se encontrar saberei exatamente o que é e aí sentir-me-ei a pessoa mais realizada do mundo, até lá continuarei assim, meia-viva ou meia-morta, como queiram. 

13 de agosto de 2013

Faço sempre aquilo que entendo como correto não interessa aquilo que me pode vir a custar a mim ou a outras pessoas. É nestas situações que me sigo sempre pela razão e não pela emoção. Quando a minha cabeça diz não e o meu coração diz sim a decisão final, por muito que me custe, será não. Não sei se isto é bom, cada vez afasto mais as poucas pessoas que até gostavam de mim e se importavam comigo, tenho a tendência a racionalizar tudo e a facilmente me desiludir e desapontar com as pessoas.

11 de agosto de 2013

Chuva

Estava a caminhar, o tempo estava de uma tonalidade cinzenta que envolvia tudo à nossa volta, estava fresco, um vento, não muito forte, mas ainda sim frio, chiava pelas ruas - a chuva preparava-se para cair. Caiu-me uma gota no nariz, tenho a certeza que essa foi a primeira gota de chuva, andei mais meia dúzia de metros sem nada me cair em cima, comecei a andar ainda mais depressa, com esperanças de que isso fizesse com a chuva caísse em cima de mim, pouco tempo depois e quase como que a medo, fui ouvida. As gotas de chuva foram caindo, uma a uma, escorrendo-me pela cara como se fossem lágrimas. Ainda assim não estava satisfeita, queria deveras que chovesse torrencialmente em cima de mim, prolonguei a volta, comecei agora a andar devagar para dar tempo que o meu desejo se realizasse - não realizou. A chuva começou a diminuir e parou - fiquei triste. 

8 de agosto de 2013

"Cheguei a uma fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo." 


 Charles Bukowski

7 de agosto de 2013

If only tonight we could sleep in a bed made of flowers…

Ó meu amor… vem, aproxima-te de mim, vem, não tenhas medo, não tenhas medo de sentir o toque das minhas mãos frias na tua pele em fogo, não tenhas medo que o brilho dos meus olhos incendeie tudo à nossa volta e apague as estrelas, nem que a minha acelerada respiração te congele os ossos e te faça parar o coração, não tenhas medo de tocar nos meus lábios inchados cor de sangue. Vem e respira-me. Vem e perde-te comigo no meio de uma noite de verão eterna. Vamos, agarra-me na mão e leva-me para dentro do negrume da noite, canta-me ao ouvido e embala-me em palavras doces - em palavras que não existem. Vem e faz-me um vestido de flores e, bêbedos do perfume que elas exaltam, morreremos nos braços um do outro. 
Eu quero ser tanto e ao mesmo tempo nada. Conseguir o muito através do nada. Ser nada e esse nada tornar-me muito pelo simples facto de ser nada.

6 de agosto de 2013

Queria que todos os dias fossem como o dia de ontem. Acordei instantaneamente bem-disposta, vesti o meu vestido azul às bolinhas brancas e saí à rua. Fui à gelataria que mais gosto e pedi um gelado de morango, andei pelas ruas como se fosse a pessoa mais feliz do mundo enquanto ouvia duas músicas da soundtrack do Pulp Fiction. Apesar dessa enorme rajada de felicidade que me deu nesse dia, sabia que era finita, e que apenas ia durar enquanto o entusiasmo durasse, que por mais que sentisse que a partir  daquele momento a minha felicidade iria ser eterna, sabia perfeitamente que ainda virão muitos dias, bastante próximos até, que não o irão ser. Não foi preciso muito até perceber que não me enganei, à medida que ia comendo o gelado o entusiasmo desaparecia, ora, uma pessoa comum dir-me-ia que tal devia-se ao facto de estar a findar o gelado, mas não, era muito mais que isso, à medida que estava a ser feliz, e me comecei a aperceber disso, comecei , lentamente, a matar a felicidade e quanto percebi que estava a fazê-lo, mais rapidamente a matava, uma vez neste processo torna-se impossível voltar  atrás.  Decidi então parar por aí e manter a felicidade que ainda me restava, isso só se conseguiria se deixasse de pensar, foi então o que fiz, dirigi-me ao jardim e comecei a ler o livro da Virginia Woolf com o qual ando ocupada de momento, não há nada melhor para a abstração que a leitura, graças a isso, consegui salvar o dia sem me voltar a preocupar com questões de análise sobre a minha felicidade ou falta dela e, desta forma, acabei o dia feliz. Isso eu sei porque hoje é outro dia e portanto posso analisar o dia passado, pois nada vai poder alterá-lo, ontem fui feliz, não sei porquê mas fui, não sei se era por estar um belo dia de sol, se por ter vestido um dos meus vestidos preferidos, se pelo gelado, se pelo livro,  a única coisa que sei é que o fui, e quando estava prestes a destruí-lo tive a inteligência suficiente para manipular a razão e me superar a mim própria.