7 de setembro de 2013

Deve ser tão bom ser alegre, ser feliz, não é verdade? Ter a alma quente como o estofo de um ninho, ser pequenino em tudo até nos desejos, que bom deve ser, não deve? Os corações pequeninos, os modestos, são sempre tão bondosos, tão quentes! O meu anda à solta, tão grande, tão ambicioso, tem sempre frio, está sempre só… Ninguém sabe andar com ele! E nota, minha Júlia, que eu não sou como muitas mulheres que querem ser tristes, que só se encontram bem na solidão, que procuram a paz, o silêncio e a indiferença de todos; que cultivam no peito com extremos de amor todas as saudades, que acariciam e albergam todas as dores! Eu não, eu expulso, desesperada, todas as lágrimas, eu procuro aquecer-me a todos os risos, comprimo sempre o coração para o fazer pequenino, estendo os ouvidos a todas as canções, olho ao longe, de olhos muito abertos, todos os céus.
E é sempre em vão! E os risos calam-se quando eu quero ouvir, e os meus pobres olhos tristes cegam-se a todas as claridades. Mas agito sempre os guizos, faço sempre barulho, um barulho infernal cheio de vida, de alegria, imito todos os risos e cá dentro é noite… e cumprimentam-me todos pelo meu génio alegre e «divertido»… Tem graça, pois não tem, minha Júlia? Se soubessem como sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim! Assim sou… muito sincera, de uma franqueza que chega muitas vezes à brutalidade (dizem os que me conhecem muito bem) e sou… extremamente alegre, não há tristezas que me cheguem nem venturas que me fujam!

Florbela Espanca, in “Correspondência" (1916)
Os que vivem melhor são aqueles que nem sequer tentam compreender a vida. Ah, quem me dera ser assim, desprendida de tudo e de todos, que as minhas preocupações fossem apenas as do dia-a-dia e do quotidiano, que não divagasse em pensamentos e filosofias que não me levam a lado nenhum. Ser levada de arrasto com os outros. Os outros, aquém lhes é dado o benefício de saber viver.

1 de setembro de 2013

Estou farta de sentir esta nostalgia. Sentir saudades de um tempo que não é meu, sentir saudades de coisas que nunca vivi, nem senti, nem vi. Sabem o que é? Quando sentimos saudades de coisas que nunca foram nossas, quando sentimos que devíamos ter pertencido a outro lugar, a outro século, a outra idade. Eu não pertenço aqui.
(2010) 

Passado tanto tempo, e apesar de tudo, pouco mudou.