Deve ser tão bom ser alegre, ser feliz, não é verdade? Ter a alma
quente como o estofo de um ninho, ser pequenino em tudo até nos desejos, que
bom deve ser, não deve? Os corações pequeninos, os modestos, são sempre tão
bondosos, tão quentes! O meu anda à solta, tão grande, tão ambicioso, tem
sempre frio, está sempre só… Ninguém sabe andar com ele! E nota, minha Júlia,
que eu não sou como muitas mulheres que querem ser tristes, que só se encontram
bem na solidão, que procuram a paz, o silêncio e a indiferença de todos; que
cultivam no peito com extremos de amor todas as saudades, que acariciam e
albergam todas as dores! Eu não, eu expulso, desesperada, todas as lágrimas, eu
procuro aquecer-me a todos os risos, comprimo sempre o coração para o fazer
pequenino, estendo os ouvidos a todas as canções, olho ao longe, de olhos muito
abertos, todos os céus.
E é sempre em vão! E os risos calam-se quando eu quero ouvir, e os meus pobres olhos tristes cegam-se a todas as claridades. Mas agito sempre os guizos, faço sempre barulho, um barulho infernal cheio de vida, de alegria, imito todos os risos e cá dentro é noite… e cumprimentam-me todos pelo meu génio alegre e «divertido»… Tem graça, pois não tem, minha Júlia? Se soubessem como sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim! Assim sou… muito sincera, de uma franqueza que chega muitas vezes à brutalidade (dizem os que me conhecem muito bem) e sou… extremamente alegre, não há tristezas que me cheguem nem venturas que me fujam!
E é sempre em vão! E os risos calam-se quando eu quero ouvir, e os meus pobres olhos tristes cegam-se a todas as claridades. Mas agito sempre os guizos, faço sempre barulho, um barulho infernal cheio de vida, de alegria, imito todos os risos e cá dentro é noite… e cumprimentam-me todos pelo meu génio alegre e «divertido»… Tem graça, pois não tem, minha Júlia? Se soubessem como sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim! Assim sou… muito sincera, de uma franqueza que chega muitas vezes à brutalidade (dizem os que me conhecem muito bem) e sou… extremamente alegre, não há tristezas que me cheguem nem venturas que me fujam!
Florbela Espanca, in
“Correspondência" (1916)