As ruas estão vazias. Não se vê ninguém. Chove lá fora. Umas mãos frias apertam-me a garganta, e de repente é em mim que chove, e não na rua. Sinto chover, mas não sinto a chuva a cair-me em cima da pele. Chove-me por dentro. O coração fecha-se. As ruas estão vazias, mas não são as ruas do lado de lá da janela, nessas vê-se sempre tanta gente sem se ver! Também não são as mãos frias que me apertam, são umas garras que me dilaceram. Cortam-me aos pedaços, pedaços que se estilhaçam e se perdem em mim. O coração parou. Choveu em mim, ou melhor, choveu de mim porque foi de mim que choveu. A chuva arrastou os pedaços que me pertenciam. O coração já não existe. A chuva parou. Se a chuva que cai na rua fosse tão fria como a que choveu dentro de mim o mundo também não existiria, estilhaçaria à primeira gota.