O facto de todas as pessoas estarem-se a tornar para mim indiferentes, começa a assustar-me um bocadinho.
27 de agosto de 2012
26 de agosto de 2012
Pesa-me em mim, na consciência, os gritos abafados de toda uma humanidade que já não existe. A minha consciência fundiu-se com outras consciências desconhecidas que por aqui decidiram instalar-se sem pedir ordem a ninguém. Carrego o peso de toda uma eternidade em cima dos ombros. E sinto-me cansada, só de pensar no cansaço que tudo isto me causa.
25 de agosto de 2012
Os
raios de sol matinais entram pela persiana batendo-me nos olhos, automaticamente estes tentam abrir mas são de
seguida feridos pelo excesso de luz, e por isso, fecho-os novamente. Lanço um
pequeno murmúrio de quem não quer acordar e coloco o lençol
por cima da cara. Mas não, já não consigo dormir. Aguardo até que o meu cérebro
envie as ordens necessárias para finalmente me pôr de pé. Passo a mão pelo
cabelo e procuro os chinelos, para variar não sei deles, não perco tempo com
isso e, descalça, dirijo-me à cozinha. Estou ensonada e por isso não acendo a
luz. Maquinalmente, retiro o leite do frigorífico e coloco-o num copo,
aquecendo-o no micro-ondas. Com o copo na mão, dirijo-me para o meu quarto
outra vez - abro a persiana, e logo de seguida arrependo-me de o ter
feito. Uma rajada de luz entra pelos meus olhos adentro e ilumina-me o quarto.
Não gosto disto. Não gosto quando o tempo não está de acordo com o meu estado
de humor. Hoje queria que tivesse chovido, que tivesse estado frio e vento.
Volto a fechar a persiana. Deito-me e tento dormir. Quero ignorar-me. Quero não
existir. Quero dormir para não pensar. Não consigo - e uma avalanche de memórias atinge-me o
cérebro, outra vez. Passa tudo por mim como fragmentos fotográficos de uma vida
que já não existe. Fecho os olhos com força, e pergunto-me, sinceramente,
quando é que esta fase vai passar. Mas logo de seguida, acho a pergunta quase
ridícula e tenho vontade de me rir de mim própria. Isto não é uma fase - isto
sou eu, o que quer que isso seja. À coisa de um ano para cá, tudo se tornou nesta inutilidade. Não sou nada, não tenho
nada. Dizem que é melhor não ter nada do que ter tudo e perder esse tudo. Mas e
quando esse nada é consequência da perda de tudo? Não sei quem sou, nem o que alguma vez fui. Uma agonia vinda de outra
vida atravessa-me os pensamentos e pesa-me na consciência. Sinto-a como uma
coisa física, e faz-se noite cá
dentro. Posso finalmente dormir porque é noite em mim. Vivo uma vida que já não é a minha e sou sozinha e
triste.
23 de agosto de 2012
Infelizmente a boa literatura portuguesa está-se a perder. Tivemos escritores fantásticos nestes últimos séculos (XIX e XX) daquilo que eu conheço. Se o estado português em vez de ter andado a oferecer Magalhães tivesse oferecido livros é que era bem feito mas enfim...
Também é uma grande realidade que as pessoas preferem comprar livros da vida do "Angélico Vieira" (como ainda hoje reparei na fnac), do que literatura propriamente dita. O que além de ser um grande desperdício de dinheiro, revela como esta sociedade está a precisar de uma grande reforma a nível cultural e de valores. Hoje em dia, as pessoas preferem saber da vida dos outros do que propriamente instruir-se em alguma coisa. O mercado português não é nada bom para este tipo de profissão. Além de que os bons livros são caríssimos o que também não ajuda nada. É uma pena, uma grande pena.
18 de agosto de 2012
17 de agosto de 2012
Queria que alguém, em que eu
tivesse total confiança, me pegasse pelo braço e me levasse para um qualquer
sítio isolado. Iria ser difícil fazê-lo, eu iria resistir, e iria querer saber
para onde me levavam, mas não me poderiam dizer. Esse sítio poderia ser no cimo
de uma montanha ou ao pé de comboios, para que o barulho abafa-se os gritos. E
que depois essa pessoa me dissesse: Grita! Eu sentir-me-ia tímida e
envergonhada e diria que não, por isso, essa pessoa teria de começar primeiro.
Depois de ganhar confiança e me sentir à vontade, gritaria também, até mais
não. Gritaríamos os dois num só som, capaz de fazer estremecer as montanhas ou
o comboio que naquela hora ali passasse. Os gritos, transformar-se-iam em
lágrimas. Gritaríamos e choraríamos até nos doer a garganta e nos arder os
olhos. Depois, exaustos cairíamos sob os joelhos, e com restos de lágrimas
ainda pendentes nas nossas caras, abraçar-nos-íamos num silêncio mudo matando,
assim, todos os nossos fantasmas. Sentiríamos uma liberdade nova percorrer-nos nas
veias, as lágrimas que há pouco eram de raiva e de angústia transformar-se-iam
em lágrimas de alívio e compreensão mútua. Sairíamos dali, sem dizer
uma única palavra, e nunca mais voltaríamos a falar disso...
Tenho o santo horror da frieza calculada, da boa educação, do prudente juízo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espontânea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao pé dela e não será com certeza ao pé de mim... Comigo hás de ter sempre que pensar e que fazer. Hás de rir das minhas tolices, hás de ralhar quando elas passarem a disparates (hão de ser pequeninos...) e hás de gostar mais de mim assim, do que se eu fosse a própria deusa Minerva com todo o juízo que todos os deuses lhe deram.
Florbela Espanca
12 de agosto de 2012
8 de agosto de 2012
Não gosto de dar títulos aos meus
textos. Não gosto de títulos, no que quer que seja. Para dizer a verdade, nunca
fui boa com títulos. Dar um título a alguma coisa, é resumir em duas ou três
palavras aquilo que se disse em duzentas ou mais. Eu não consigo fazê-lo. Para
já, nunca fui boa em resumos e depois porque não consigo colocar em meia dúzia
de palavras aquilo que disse em quinhentas. Tenho esta mania, que as coisas têm
de ser bem explicadas, nenhum pormenor pode ser menos importante que outro, se
estes estão interligados. Mas, apesar de eu não conseguir fazê-lo, acho que os
títulos são importantes. Por exemplo, quando se compra um livro que não se
conhece, o título é, sem dúvida, um fator crucial. Eu nunca consigo dar um
título a nada, porque todas as escolhas que eu possa ter pensado, acabam por
não se identificarem inteiramente com
aquilo que escrevi, acabando assim por ficar, na maioria das vezes, sem
título. Também não gosto de títulos em pessoas. Muito menos quando isso é
desculpa para a valorizar em relação a outra. Porquê que uma pessoa, que por
azar da vida, não foi bem-sucedida não pode ser, tão ou mais inteligente que
outra que sempre teve todas as oportunidades e atingiu tudo o que quis? Não
gosto de pessoas que definem sentimentos e argumentam conversas com frases
feitas. Não gosto de coisas definidas, explicadas sim, mas não definidas. Se eu
quero a definição de alguma coisa vou ao dicionário e encontro-a, não preciso
que ninguém me dê. É simples, ou as pessoas sabem explicar-se e defender-se em
certas matérias ou não. Agora por favor, não me venham com frases que viram não
sei onde, nem com situações abstratas definidas em meia dúzia de palavras ou
com um qualquer discurso vazio preparado maquinalmente isso só demonstra uma
fraca capacidade de argumentar o que nos remete para uma fraca capacidade de
pensar, que é coisa que já não se faz muito ultimamente… e com isto, acabei por
me desviar um pouco do assunto inicial, mas eu cá continuo na minha… Dar
títulos para quê?
7 de agosto de 2012
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