17 de agosto de 2012



Queria que alguém, em que eu tivesse total confiança, me pegasse pelo braço e me levasse para um qualquer sítio isolado. Iria ser difícil fazê-lo, eu iria resistir, e iria querer saber para onde me levavam, mas não me poderiam dizer. Esse sítio poderia ser no cimo de uma montanha ou ao pé de comboios, para que o barulho abafa-se os gritos. E que depois essa pessoa me dissesse: Grita! Eu sentir-me-ia tímida e envergonhada e diria que não, por isso, essa pessoa teria de começar primeiro. Depois de ganhar confiança e me sentir à vontade, gritaria também, até mais não. Gritaríamos os dois num só som, capaz de fazer estremecer as montanhas ou o comboio que naquela hora ali passasse. Os gritos, transformar-se-iam em lágrimas. Gritaríamos e choraríamos até nos doer a garganta e nos arder os olhos. Depois, exaustos cairíamos sob os joelhos, e com restos de lágrimas ainda pendentes nas nossas caras, abraçar-nos-íamos num silêncio mudo matando, assim, todos os nossos fantasmas. Sentiríamos uma liberdade nova percorrer-nos nas veias, as lágrimas que há pouco eram de raiva e de angústia transformar-se-iam em lágrimas de alívio e compreensão mútua. Sairíamos dali, sem dizer uma única palavra, e nunca mais voltaríamos a falar disso...

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