Os
raios de sol matinais entram pela persiana batendo-me nos olhos, automaticamente estes tentam abrir mas são de
seguida feridos pelo excesso de luz, e por isso, fecho-os novamente. Lanço um
pequeno murmúrio de quem não quer acordar e coloco o lençol
por cima da cara. Mas não, já não consigo dormir. Aguardo até que o meu cérebro
envie as ordens necessárias para finalmente me pôr de pé. Passo a mão pelo
cabelo e procuro os chinelos, para variar não sei deles, não perco tempo com
isso e, descalça, dirijo-me à cozinha. Estou ensonada e por isso não acendo a
luz. Maquinalmente, retiro o leite do frigorífico e coloco-o num copo,
aquecendo-o no micro-ondas. Com o copo na mão, dirijo-me para o meu quarto
outra vez - abro a persiana, e logo de seguida arrependo-me de o ter
feito. Uma rajada de luz entra pelos meus olhos adentro e ilumina-me o quarto.
Não gosto disto. Não gosto quando o tempo não está de acordo com o meu estado
de humor. Hoje queria que tivesse chovido, que tivesse estado frio e vento.
Volto a fechar a persiana. Deito-me e tento dormir. Quero ignorar-me. Quero não
existir. Quero dormir para não pensar. Não consigo - e uma avalanche de memórias atinge-me o
cérebro, outra vez. Passa tudo por mim como fragmentos fotográficos de uma vida
que já não existe. Fecho os olhos com força, e pergunto-me, sinceramente,
quando é que esta fase vai passar. Mas logo de seguida, acho a pergunta quase
ridícula e tenho vontade de me rir de mim própria. Isto não é uma fase - isto
sou eu, o que quer que isso seja. À coisa de um ano para cá, tudo se tornou nesta inutilidade. Não sou nada, não tenho
nada. Dizem que é melhor não ter nada do que ter tudo e perder esse tudo. Mas e
quando esse nada é consequência da perda de tudo? Não sei quem sou, nem o que alguma vez fui. Uma agonia vinda de outra
vida atravessa-me os pensamentos e pesa-me na consciência. Sinto-a como uma
coisa física, e faz-se noite cá
dentro. Posso finalmente dormir porque é noite em mim. Vivo uma vida que já não é a minha e sou sozinha e
triste.
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