6 de agosto de 2013

Queria que todos os dias fossem como o dia de ontem. Acordei instantaneamente bem-disposta, vesti o meu vestido azul às bolinhas brancas e saí à rua. Fui à gelataria que mais gosto e pedi um gelado de morango, andei pelas ruas como se fosse a pessoa mais feliz do mundo enquanto ouvia duas músicas da soundtrack do Pulp Fiction. Apesar dessa enorme rajada de felicidade que me deu nesse dia, sabia que era finita, e que apenas ia durar enquanto o entusiasmo durasse, que por mais que sentisse que a partir  daquele momento a minha felicidade iria ser eterna, sabia perfeitamente que ainda virão muitos dias, bastante próximos até, que não o irão ser. Não foi preciso muito até perceber que não me enganei, à medida que ia comendo o gelado o entusiasmo desaparecia, ora, uma pessoa comum dir-me-ia que tal devia-se ao facto de estar a findar o gelado, mas não, era muito mais que isso, à medida que estava a ser feliz, e me comecei a aperceber disso, comecei , lentamente, a matar a felicidade e quanto percebi que estava a fazê-lo, mais rapidamente a matava, uma vez neste processo torna-se impossível voltar  atrás.  Decidi então parar por aí e manter a felicidade que ainda me restava, isso só se conseguiria se deixasse de pensar, foi então o que fiz, dirigi-me ao jardim e comecei a ler o livro da Virginia Woolf com o qual ando ocupada de momento, não há nada melhor para a abstração que a leitura, graças a isso, consegui salvar o dia sem me voltar a preocupar com questões de análise sobre a minha felicidade ou falta dela e, desta forma, acabei o dia feliz. Isso eu sei porque hoje é outro dia e portanto posso analisar o dia passado, pois nada vai poder alterá-lo, ontem fui feliz, não sei porquê mas fui, não sei se era por estar um belo dia de sol, se por ter vestido um dos meus vestidos preferidos, se pelo gelado, se pelo livro,  a única coisa que sei é que o fui, e quando estava prestes a destruí-lo tive a inteligência suficiente para manipular a razão e me superar a mim própria. 

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