Queria que todos os dias fossem
como o dia de ontem. Acordei instantaneamente bem-disposta, vesti o meu vestido
azul às bolinhas brancas e saí à rua. Fui à gelataria que mais gosto e pedi um
gelado de morango, andei pelas ruas como se fosse a pessoa mais feliz do mundo
enquanto ouvia duas músicas da soundtrack do Pulp Fiction. Apesar dessa enorme
rajada de felicidade que me deu nesse dia, sabia que era finita, e que apenas
ia durar enquanto o entusiasmo durasse, que por mais que sentisse que a partir daquele momento a minha felicidade iria ser
eterna, sabia perfeitamente que ainda virão muitos dias, bastante próximos até, que não o irão ser. Não foi preciso muito até perceber que não me enganei, à
medida que ia comendo o gelado o entusiasmo desaparecia, ora, uma pessoa comum
dir-me-ia que tal devia-se ao facto de estar a findar o gelado, mas não, era
muito mais que isso, à medida que estava a ser feliz, e me comecei a aperceber
disso, comecei , lentamente, a matar a felicidade e quanto percebi que estava a fazê-lo, mais
rapidamente a matava, uma vez neste processo torna-se impossível voltar atrás. Decidi então parar por aí e manter a
felicidade que ainda me restava, isso só se conseguiria se deixasse de pensar,
foi então o que fiz, dirigi-me ao jardim e comecei a ler o livro da Virginia
Woolf com o qual ando ocupada de momento, não há nada melhor para a abstração
que a leitura, graças a isso, consegui salvar o dia sem me voltar a preocupar
com questões de análise sobre a minha felicidade ou falta dela e, desta forma, acabei o dia feliz. Isso eu
sei porque hoje é outro dia e portanto posso analisar o dia passado, pois nada
vai poder alterá-lo, ontem fui feliz, não sei porquê mas fui, não sei se era
por estar um belo dia de sol, se por ter vestido um dos meus vestidos
preferidos, se pelo gelado, se pelo livro,
a única coisa que sei é que o fui, e quando estava prestes a destruí-lo
tive a inteligência suficiente para manipular a razão e me superar a mim
própria.
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