Sinto-me como se já tivesse
vivido cem anos e, no entanto, ainda não vivi nenhum. A maior parte dos meus
dias são mortos. Vivo sempre à espera de alcançar outra coisa, no entanto, com
o passar dos anos, nota-se que alguma coisa produzi. Todos os dias faço alguma
coisa, mesmo que seja mínima, que traça um caminho que me levará a algum
lado mas, parece-me, que apenas o faço no intuito de passar o tempo até
finalmente alcançar aquilo que desejo apesar de não saber do que se trata. Nos
meus piores dias sou como um peso morto, caio em cima de qualquer coisa e dali
não me movo, quando não o posso fazer e sou obrigada a estar em algum sítio o
meu corpo está lá mas apenas isso, nesses dias vivo porque sou obrigada e por
isso não me podem exigir mais do que aquilo que já estou a fazer.
No entanto,
as mais pequenas coisas fazem-me feliz; Adoro sentir o sol a aquecer
o meu corpo e a queimar-me ligeiramente a
pele, o brilho que dá ao meu cabelo
quando embate diretamente sobre ele, as águas do rio, ora calmas, ora turbulentas
(conforme a corrente) e a sua cor, uma vez azul, outras vezes turva, outras
transparente. Tenho vontade de correr para ele e fundir-me - transformar-me em
água do rio. A relva verde, com salpicos amarelos e brancos de margaridas e
flores silvestres, que dá vontade de me lá deitar e rebolar e ali ficar
eternamente. A maneira como o sol incide nos objetos, nas casas, à tarde, fazendo
com que as coisas vibrem e se tornem cor de ouro e como tudo se desvanece depois no
fim da tarde. Gosto de quando bebo café lamber primeiro a colher com a qual
mexi. Gosto de vestir vestidos que tenham cor ou padrões que me dêem
vivacidade. Gosto de usar batom. Adoro quando acordo de manhã com o sol a
embater-me na cara pelas frestas das persianas e de ficar algum tempo na ronha
a ouvir música antes de me levantar. Gosto de ter energia e de falar com
pessoas de quem eu gosto ou nutro admiração. São coisas simples, sim, mas que
todas juntas num dia me são capazes de me fazer sentir viva mas, e aqui está o
problema, nem todos os dias são assim, há mais coisas para além destas que
acabam por ter mais impacto e mais força, há dias que nem mesmo estas coisas
todas juntas me são capazes de me fazer retornar à vida, procuro qualquer
coisa, que apesar de não saber o que é, sei que nunca vou encontrar e mesmo
assim tenho esperança, continuo a minha espera e a minha procura até que acabe
por encontrar aquilo que quero. Se encontrar saberei exatamente o que é e aí
sentir-me-ei a pessoa mais realizada do mundo, até lá continuarei assim,
meia-viva ou meia-morta, como queiram.
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