Os Homens são como os fósforos!
São sete e cinquenta e três da tarde do
dia dezanove de abril, olho pela janela e o céu está de um azul deslavado,
límpido, não tarda escurecerá, e o azul límpido quase transparente dará lugar
ao negrume opaco da noite. No tempo em que isto decorre, morrem células no
nosso corpo de que não damos conta, do outro lado do mundo não escurece mas
amanhece, o dia foge-nos e nós ficamos mais velhos. Não passamos o tempo - gastamo-lo.
Cada minuto, hora, dia, ano que passa é mais um na contagem decrescente do
nosso fim, seja ele amanhã ou daqui a cinquenta anos. Cada ano que passa é
menos um que devemos ao tempo. Dê-se por sortudo aquele que morre sem saber
quando e de quê. Aquele que o sabe não lhe resta mais do que viver agoniado com
tal espera. O que distingue aqueles que morrem sem saberem dos que os que sabem
é a consciência de morte e do tempo que lhes resta. Aquele que não sabe anda
tão distraído com a sua vida que mal tem tempo para se debruçar no seu
fim, já para o outro a sua vida passa a ser a sua morte. Se algum dia tiver
algum problema no qual seja possível fazer uma estimativa do tempo que me resta
pedirei a essa pessoa para que nunca mo diga, nem mesmo que o pergunte, prefiro
a ansiedade à agonia. A partir do momento em que o soubesse - morreria, não
enquanto corpo mas enquanto alma. Seria apenas um corpo esperando o inevitável.
Mais uma prova de como a ignorância é o melhor caminho para a felicidade do
Homem. Difícil não é adquirir conhecimento mas ser ignorante! O que procura a
verdade afasta-se da verdade! E a maior verdade que todos nós procuramos é a
felicidade. Que raça enfadonha é esta que anda sempre ao contrário?
Festeja-se aniversários à medida que nos aproximamos do fim, procuramos
conhecimento para que possamos atingir uma verdade absoluta que justifique a
nossa razão de viver quando a verdade se encontra não procurando.
Já são vinte e
dezassete, tenho exatamente menos vinte e quatro minutos de vida do que tinha
antes de começar a escrever este texto, e nada escrevi!
Se virmos bem
entre um Homem e um fósforo não há grande diferença. Somos como caixas de
fósforos dadas a crianças - acende-os só para os poder apagar. Nascemos para
morrer, e a nossa vida é o sopro que vai desde a intermitência da chama até ao
fumo que se esbate. Até os fósforos podem ter tempos de duração diferentes, tal
como nós. Se soprarmos assim que os acendemos, o tempo que este durou é curto,
se deixarmos que a chama consuma toda a madeira que se lhe segue, o tempo que
durou é mais longo que o do primeiro. Agora é só equacionar, fazer uma regra
três simples e podemos colocar o fósforo e o homem no mesmo
espaço temporal. Não sei porque me encontro meditando nestas coisas. Só sei que
já são oito e vinte e oito e eu ainda não saí do mesmo sítio. Restam-me menos
trinta e cinco minutos. Queimei-os a fazer comparações entre fósforos e
humanos, podia dar-me para pior.
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